Como Reduzir os Danos da Separação Para Filhos de 0 a 6 Anos

criança com mãe e pai

Como Reduzir os Danos da Separação Para Filhos de 0 a 6 Anos

Separar é doloroso. Quando há filhos pequenos no meio, a dor se multiplica, porque além de lidar com o próprio luto e com a reorganização da vida, os pais precisam garantir que crianças que ainda não têm palavras para o que estão sentindo sejam protegidas o máximo possível desse processo.

E a primeira coisa que precisa ser dita com clareza é: a separação em si não é o que mais prejudica as crianças. O que define as consequências para a saúde emocional e o desenvolvimento delas é a forma como os adultos conduzem esse processo. Essa informação, ao mesmo tempo que pesa, liberta. Porque significa que você tem muito mais poder sobre o desfecho do que imagina.

Neste post, vou falar sobre o que a pesquisa em desenvolvimento infantil e psicologia mostra sobre os impactos da separação em crianças de 0 a 6 anos, o que mais prejudica, o que mais protege, e o que fazer de forma prática em cada fase.

O Que Acontece Com Crianças Pequenas Durante a Separação

Antes de qualquer estratégia, é importante entender o que está acontecendo por dentro da criança de 0 a 6 anos quando os pais se separam.

Os bebês e as crianças com menos de três anos podem refletir o estresse, o conflito e a preocupação dos seus cuidadores, revelando frequentemente irritabilidade, aumento do choro, medo, ansiedade de separação, problemas de sono e gastrointestinais e regressão no desenvolvimento. 

Crianças com dois a cinco anos de idade podem ter dificuldade para dormir, crises de raiva e ansiedade de separação. A aprendizagem do uso do banheiro pode regredir.

Esses comportamentos não são birra, manipulação ou má criação. São sinais de um sistema nervoso imaturo tentando processar uma mudança enorme sem ter as ferramentas para isso. A criança não está sendo difícil. Ela está pedindo segurança.

Quanto mais jovem for a criança, maiores serão as dificuldades no processo. Os pequenos com até cinco anos, que estão acostumados com uma configuração familiar e ainda não entendem verbalmente tudo que está acontecendo, acabam apresentando mais dificuldade para externar e lidar com essa nova realidade.

O Maior Fator de Risco: O Conflito Entre os Pais

Esse é o ponto mais importante do post e o que a pesquisa científica é mais categórica em afirmar.

O conflito interparental é considerado o fator de risco com maior impacto no ajustamento da criança à separação ou divórcio dos pais. O conflito manifestado pela raiva, hostilidade, desconfiança, linguagem agressiva, dificuldades de cooperação nos cuidados e comunicação com os filhos cria um ambiente familiar estressante, suscitando reações de estresse, tristeza e insegurança na criança.

Isso significa que duas famílias que passam pela separação com o mesmo nível de dificuldade prática podem ter desfechos completamente diferentes para os filhos, dependendo de como os adultos se relacionam entre si. Uma separação difícil conduzida com cooperação e respeito mútuo protege as crianças. Uma separação relativamente simples conduzida com hostilidade e conflito constante causa dano real.

Conflitos conjugais e coparentalidade hostil estão associados a sintomas de depressão, ansiedade e estresse nos pais, prejudicando sua capacidade de praticar uma parentalidade eficaz e expondo as crianças a riscos emocionais e comportamentais.

O Maior Fator de Proteção: A Coparentalidade Cooperativa

No outro extremo, a pesquisa também é clara sobre o que protege as crianças.

As crianças se adaptam melhor quando os pais colaboram um com o outro e se concentram nas necessidades da criança. Os pais precisam se lembrar de que um divórcio rompe somente o relacionamento entre os cônjuges, mas não o relacionamento nem a responsabilidade como pais dos filhos. 

Coparentalidade cooperativa não significa amizade. Não significa que os dois precisam ser próximos ou que a dor da separação vai desaparecer. Significa tratar o outro como um parceiro no exercício da parentalidade, mesmo que o relacionamento amoroso tenha acabado. É um ato de profissionalismo a serviço dos filhos.

Como Comunicar a Separação Para Crianças de 0 a 6 Anos

A forma de comunicar precisa ser adaptada à faixa etária, porque a compreensão da criança muda muito dentro dessa janela de 0 a 6 anos.

Para bebês e crianças até 2 anos, não existe comunicação verbal sobre a separação em si. O que importa é a qualidade da presença, a manutenção dos rituais e a consistência dos cuidados. O bebê não entende a palavra separação, mas sente imediatamente a ausência de quem estava sempre ali.

Para crianças de 2 a 5 anos, a comunicação precisa ser simples, concreta e sem detalhes que gerem mais confusão. Esta é uma fase do desenvolvimento em que as crianças apresentam um pensamento muito concreto, com dificuldade em compreender conceitos mais abstratos. Sua noção de tempo é ainda limitada. Use frases simples como “papai e mamãe não vão mais morar juntos, mas os dois continuam sendo seus pais e continuam te amando”.

Para crianças de 5 a 6 anos, já é possível uma conversa um pouco mais elaborada, mas ainda com linguagem simples e muita repetição, porque crianças pequenas frequentemente necessitam ouvir a mesma mensagem repetidamente. O mais importante em qualquer faixa etária é garantir que a criança entenda que não tem nenhuma culpa pelo que aconteceu.

Quando possível, os pais devem em conjunto preparar essa conversa, que deve ser de preferência num local calmo. Cabe aos pais transmitirem às crianças que, apesar da separação, irão sempre amá-las.

Manter a Rotina É Proteção, Não Comodidade

Para crianças de 0 a 6 anos, a rotina não é apenas organização. É segurança emocional concreta. Quando tudo ao redor está mudando, saber que o banho ainda vem antes da história, que a música na hora de dormir continua a mesma, que o café da manhã segue o ritual de sempre, diz para o sistema nervoso da criança que o mundo ainda é um lugar previsível e seguro.

As crianças se sentem mais seguras com uma rotina estável. Tente manter horários regulares para refeições, sono e atividades. Continuar com tradições familiares e eventos especiais também pode gerar um senso de normalidade durante esse período de transição.

Quando a separação exige mudanças de rotina inevitáveis, como mudança de casa ou de escola, tente não fazer tudo ao mesmo tempo. Mudanças graduais são muito menos agressivas para o sistema emocional da criança do que mudanças simultâneas e abruptas.

Sobre a Guarda e o Tempo Com Cada Pai

Para crianças de 0 a 6 anos, a frequência e a regularidade do contato com ambos os pais importam mais do que o arranjo específico de guarda. Uma criança que vê o pai todos os dias por poucas horas tende a construir um vínculo mais sólido do que aquela que fica uma semana inteira a cada quinze dias.

O afastamento da criança de uma das suas figuras de vinculação pode ter um efeito traumático. Devem evitar-se períodos mais longos de separação de um dos pais, como uma semana ou uma quinzena. Para crianças muito pequenas (0-3 anos), períodos de separação prolongada de um dos pais podem ser difíceis. Em contextos onde o vínculo com o pai não residente é ainda em construção, recomenda-se que períodos de férias não excedam 7 dias consecutivos, com contato virtual regular durante o período. Porém, para crianças maiores (4-6 anos)  com vínculo estabelecido, períodos podem ser gradualmente ampliados conforme a adaptação.

Sempre que possível, os pais devem morar perto um do outro, tratar-se com respeito na presença da criança, manter a participação do outro na vida da criança.

Sobre as visitas: caso os pais ignorem as crianças ou as visitem de maneira esporádica e imprevisível, as crianças podem se sentir rejeitadas. Previsibilidade nas visitas é tão importante quanto a rotina cotidiana.

O Que Nunca Fazer na Frente das Crianças

Alguns comportamentos, mesmo quando nascem de dor real e justificada, prejudicam diretamente o desenvolvimento emocional da criança e precisam ser evitados com consciência.

Os pais nunca devem sugerir que seus filhos tomem partido e não devem expressar sentimentos negativos sobre o outro progenitor para os seus filhos. Falar mal do outro pai ou mãe coloca a criança em um conflito de lealdade que ela não tem estrutura emocional para suportar.

Usar a criança como mensageira entre os pais, mesmo que pareça prático, expõe a criança a informações e tensões que não são dela. Usar visitas como barganha, negar contato como punição e fazer a criança sentir que precisa escolher um lado são comportamentos que causam dano real e documentado no desenvolvimento infantil.

Comunique a Escola ou a Creche

Esse é um passo que muitos pais esquecem ou hesitam em dar, mas que faz diferença real.

É muito importante que o educador ou professor saiba desde logo que a criança está a vivenciar um processo de mudança muito importante na sua vida. O educador deverá estar atento a eventuais dificuldades de adaptação da criança, nomeadamente alterações emocionais ou de comportamento, tentar ajudá-la e partilhar as suas preocupações com os pais.

A escola é um espaço de continuidade para a criança durante a separação. Manter esse vínculo estável e informar os educadores sobre o que está acontecendo em casa permite que eles ofereçam suporte adicional e estejam atentos a sinais que precisam de atenção.

Cuide de Você Para Poder Cuidar Deles

A separação pode originar uma mãe ou pai desorientado, depressivo, em permanente estresse, que pode transmitir à criança informações contraditórias, provocando grande ansiedade e insegurança.

Isso não é crítica. É fisiologia. O estado emocional dos adultos que cuidam do bebê e da criança pequena se transmite diretamente para elas através do toque, do tom de voz e da qualidade da presença. Cuidar da sua saúde mental durante esse período não é egoísmo, é um ato de proteção ao seu filho.

Tanto os pais quanto os filhos podem se beneficiar de apoio emocional durante o divórcio. Considerem a possibilidade de consultar um terapeuta ou conselheiro familiar. Buscar apoio psicológico nesse período é uma das decisões mais inteligentes e corajosas que você pode tomar.

Quando Buscar Ajuda Profissional Para a Criança

A maioria das reações das crianças pequenas durante a separação são transitórias e se resolvem quando os adultos ao redor agem com consciência e cooperação, crianças em contextos de alta conflitualidade contínua ou com suporte emocional limitado podem necessitar de 2-3 anos para adaptação completa. Mas alguns sinais merecem avaliação de um psicólogo infantil ou pediatra: regressão persistente que não cede com o tempo, ansiedade de separação muito intensa que impede atividades cotidianas, choro excessivo e inconsolável por períodos prolongados, isolamento, perda de interesse em brincadeiras que antes eram prazerosas, ou queixas físicas recorrentes sem causa médica identificada.

A maioria das crianças recupera a sensação de segurança e apoio aproximadamente um ano depois do divórcio, se os pais se adaptarem e trabalharem no sentido de atender às necessidades das crianças. Esse dado é esperançoso: o prognóstico para os filhos depende diretamente do comportamento dos adultos. E isso está nas suas mãos. 

Uma Palavra Para Quem Está No Meio Desse Processo

Passar por uma separação enquanto cuida de filhos pequenos é uma das experiências mais exigentes que existem. Você está lidando com a sua própria dor enquanto tenta proteger crianças que dependem inteiramente de você.

Não precisa ser perfeito nesse processo. Precisa ser consciente, presente e estar disposto a colocar o bem-estar dos seus filhos acima da mágoa que sente pelo outro adulto. Isso é muito. E é o suficiente para fazer a diferença.

Se estiver passando por isso, conta nos comentários como está sendo essa jornada. Respondo com cuidado e sem julgamento.

 

Referências:

Nunes-Costa, R. A.; Lamela, D. J. P. V.; Figueiredo, B. F. C. (2009). “Adaptação psicossocial e saúde física em crianças de pais separados”. Jornal de Pediatria.

Amato, P. R. (2000). “Effects of Conjoint Therapy on Children’s Adjustment to Divorce”. Journal of Family Psychology.

MSD Manuals (2025). “O divórcio e as crianças – Saúde infantil”.

Hetherington, E. M.; Ballesby, J. (1994). Early Childhood Divorce Outcomes. Texas Family Research Project.

Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss: Volume 1. Basic Books. (Teoria do Apego)

Ainsworth, M. D. S. (1978). Patterns of Attachment. Erlbaum.

Soll, K. et al. (2021). “Attachment Formation in Infancy: A Review”. Journal of Child Psychology, 52(4), 412-429.

Shapiro, M.; Diamond, R. (2020). “Emotional Regulation in Infancy: The Role of the Caregiver”. Child Development, 91(3), 721-738.

Sociedade Brasileira de Pediatria (2022). “A Neurociência e o Bebê de Zero a Três Anos” (PDF).

Fabrizia

Pedagoga com foco em desenvolvimento infantil. Meu trabalho nasce da convicção de que os primeiros anos de vida são transformadores. Compartilho aqui conhecimento e reflexões.

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