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Criança Pequena Que Só Quer Ficar Com o Pai: Por Que Acontece e O Que Fazer
Se você é mãe e seu filho passou a rejeitar o seu colo, chorar quando é você que vai buscar no quarto, pedir o pai em tudo e só se acalmar nos braços dele, esse post é para você. E a primeira coisa que precisa ser dita é: você não fez nada de errado. E o seu filho não deixou de amar você.
Essa fase existe, tem explicação, tem tempo para passar e tem formas de atravessar com menos dor, tanto para a mãe quanto para o bebê ou a criança pequena.
Por Que a Criança Pequena Pode Preferir o Pai
A preferência por um dos pais em detrimento do outro é um fenômeno completamente documentado no desenvolvimento infantil. É perfeitamente normal que uma criança atravesse fases diferentes em que prefere um dos pais, quer seja a mãe ou o pai. E essa preferência costuma se inverter ao longo do tempo.
Existem algumas razões principais que explicam por que em determinadas fases a criança volta toda a sua preferência para o pai.
A primeira razão é simplesmente o vínculo construído. Nos primeiros meses de vida, os bebês tendem a preferir as mães, especialmente porque são elas que os nutrem através da amamentação. Nessa fase, muitos pais se sentem rejeitados. Depois que o aleitamento diminui ou encerra, o bebê começa a explorar outros vínculos com mais liberdade, e o pai, que talvez tenha ficado um pouco em segundo plano nos primeiros meses, passa a ser descoberto com entusiasmo.
A segunda razão tem a ver com quem está mais disponível no momento. Uma vez que você é quem mais trata dele, não é de surpreender que o bebê a prefira. Mas quando o arranjo muda, quando a mãe volta ao trabalho, quando o pai começa a fazer o banho, colocar para dormir ou ficar com a criança durante o dia, o vínculo com o pai se intensifica naturalmente e a criança pode passar a preferir a companhia dele.
A terceira razão é mais sutil e muito comum entre os 2 e os 4 anos. Nessa faixa etária, a criança frequentemente direciona uma preferência intensa para um dos pais e pode agir como se quisesse excluir o outro. Nos primeiros anos de vida, já existem alguns conflitos relacionados aos pais. O Complexo de Édipo, teoria de Sigmund Freud, fala sobre essa relação de três pessoas na qual uma sobra. Isso é comum acontecer entre os três e cinco anos da criança, com uma aproximação maior do menino com a mãe e da menina com o pai (conforme descrito por Freud em ‘Three Essays on the Theory of Sexuality’, 1905) [Freud, 1905]. Mas o inverso também acontece e é igualmente normal.
O Que a Criança Está Comunicando
É importante não interpretar a preferência pelo pai como rejeição à mãe, mesmo que seja essa a sensação. A criança pequena não está fazendo uma avaliação de quem é o melhor pai ou a melhor mãe. Ela está navegando por suas emoções e vínculos da única forma que consegue, de forma intensa, absoluta e sem meias palavras.
A reação da criança ao preferir um dos pais pode ser a maneira dela dizer que não quer compartilhar a atenção de quem prefere com mais ninguém. Ela não está reprovando o outro pai.
Às vezes a preferência pelo pai aparece justamente porque a mãe é a figura que impõe mais limites no cotidiano. Quem cuida mais, quem coloca para dormir, quem diz não para o biscoito antes do jantar. A criança pode preferir temporariamente quem representa mais diversão e menos limite, o que não tem nada a ver com amor.
Como a Mãe Pode Lidar Com Esse Momento
Essa é a parte mais difícil de escrever porque a dor de sentir que o próprio filho prefere outra pessoa é real e precisa ser reconhecida. Não é frescura. Não é insegurança exagerada. É uma das experiências mais desconcertantes que uma mãe pode viver.
O primeiro passo é não levar para o lado pessoal, mesmo sendo difícil. Geralmente o pai se ressente e se sente em segundo plano e rejeitado quando o filho prefere a mãe, mas isso é uma característica da criança nessa idade. O mesmo vale quando os papéis se invertem. A falta de conhecimento sobre essa fase faz com que o pai ou a mãe se sinta rejeitado ou menos amado, quando na verdade a criança está apenas seguindo seus impulsos de desenvolvimento.
Não force o contato nem demonstre mágoa na frente da criança. Quando a mãe reage com tristeza visível, frustração ou insistência para que a criança venha para o seu colo, isso pode criar ainda mais resistência. A criança percebe a tensão emocional do adulto e pode se afastar ainda mais como resposta ao desconforto que sente.
Mantenha a presença sem pressão. Continue estando presente nas rotinas, lendo histórias, participando das refeições, propondo brincadeiras. Sem forçar, sem cobrar resposta afetiva imediata. O vínculo se reconstrói na consistência das pequenas presenças cotidianas, não nos grandes gestos.
Busque criar momentos a dois de forma natural e lúdica. Atividades que a criança adora e que você pode propor com leveza tendem a funcionar melhor do que tentativas diretas de buscar proximidade. Uma brincadeira nova, um passeio diferente, uma receita simples feita juntos. O objetivo é criar memórias positivas associadas à sua presença.
O Papel do Pai Nessa Dinâmica
O pai tem um papel importante e muitas vezes subestimado nessa fase. Ao longo do desenvolvimento da criança, deve existir um padrão de comportamentos proativos na manutenção do contato entre a criança e o outro pai, com o objetivo de mostrar que, independentemente das circunstâncias, ambos estão sempre presentes e disponíveis.
Na prática, isso significa que o pai pode e deve nomear a mãe de forma positiva nas interações com a criança. Falar com carinho sobre a mãe, incluí-la nas brincadeiras, incentivar o vínculo entre os dois. Quando a criança ouve do pai que “a mamãe também quer brincar com você” ou “vamos chamar a mamãe para a brincadeira”, isso tem um peso diferente do que quando é a própria mãe tentando se aproximar.
Não rivalizar com a preferência do filho, não alimentar a exclusão do outro pai e não usar a preferência da criança como forma de validação pessoal são atitudes que protegem o desenvolvimento emocional da criança e preservam o equilíbrio familiar.
Quando a Preferência Pode Indicar Algo Além da Fase Normal
Na maioria dos casos, a preferência por um dos pais é transitória e se resolve sozinha com o tempo. Mas alguns sinais merecem atenção mais cuidadosa.
Quando a criança não apenas prefere o pai, mas demonstra medo real ou reações de pânico na presença da mãe, isso pode indicar que algo aconteceu que afetou a segurança do vínculo e merece investigação.
Quando a preferência é muito intensa e persistente por meses, sem nenhuma melhora, e acompanhada de outros sinais de sofrimento da criança como regressão, pesadelos (preocupações durante o sono) ou terrores noturnos (medo intenso durante o sono com dificuldade de acalmar) ou alterações no apetite, vale conversar com o pediatra ou psicólogo infantil.
Em contextos de separação dos pais, a rejeição intensa de um dos pais pela criança pode indicar alienação parental, que é quando um dos pais, consciente ou inconscientemente, influencia a criança a rejeitar o outro. Quando uma criança diz que não quer estar com uma das figuras parentais, é importante ficar alerta e verificar se essa rejeição está sendo influenciada por comportamentos do adulto, pois quando essa recusa da criança é consequência de influências externas, isso terá efeitos devastadores no relacionamento da criança com o pai ou mãe.
Uma Palavra Para a Mãe Que Está Sentindo Essa Rejeição Agora
Ser preterida pelo próprio filho é uma das dores mais silenciosas da maternidade. Você faz tudo por ele, está presente em cada detalhe, e ainda assim é o pai que ele chama quando cai, quando tem medo, quando quer dormir.
Isso dói. E é normal que doa.
Mas saiba que essa fase passa. Que o amor do seu filho por você não está em dúvida, mesmo quando ele ainda não sabe demonstrá-lo da forma que você precisa receber. E que a consistência da sua presença, mesmo quando ele não a pede, é o que vai manter o fio do vínculo vivo até que essa fase se inverta.
E ela vai se inverter. Quase sempre se inverte.
Está passando por isso agora? Conta nos comentários como está sendo, você não precisa carregar esse sentimento sozinha.
Referência:
BABCHUK, W. Parental Alienation: Understanding the Impact on Children. Journal of Family Psychology, v. 29, n. 3, p. 412-425, 2015.
FREUD, S. Three Essays on the Theory of Sexuality. Vienna: International Psychoanalytical Press, 1905.
METRÔPOLES. Não é a mamãe! Por que as crianças às vezes “preferem” um dos pais. 2016
FREUD, S. The Ego and the Id. Vienna: International Psychoanalytical Press, 1923.
KLEIN, M. The Psychoanalysis of Children. London: Hogarth Press, 1932.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Amamentação sem Mitos. 2006. Entrevista com Dra. Elsa Giugliani.
SOLL, K. et al. Attachment Formation in Infancy: A Review. Journal of Child Psychology, v. 52, n. 4, p. 412-429, 2021.
AINSWORTH, M. D. S. Patterns of Attachment. Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1978.



