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3 Livros que Ajudam no Desenvolvimento Emocional das Crianças
Você já ficou sem saber o que dizer quando seu filho veio até você chorando sem conseguir explicar o porquê? Ou quando ele jogou um brinquedo no chão com raiva e, na hora de conversar, simplesmente não encontrou as palavras para descrever o que estava sentindo?
Isso não é falta de educação nem birra sem causa. É simplesmente que identificar e nomear o que sentimos é uma habilidade. Uma habilidade que se aprende e que precisa ser ensinada.
A boa notícia é que a literatura infantil tem ferramentas incríveis para ajudar nesse processo. Livros bem escolhidos criam uma ponte entre a criança e o mundo das emoções de um jeito que a conversa direta, muitas vezes, não consegue. A criança se vê no personagem, experimenta emoções em segurança, no espaço da história, e começa a construir vocabulário emocional antes mesmo de precisar usá-lo na vida real.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a leitura compartilhada desde os primeiros meses de vida não só como estímulo ao desenvolvimento da linguagem, mas como uma das práticas mais eficazes para construir o vínculo afetivo e abrir espaço para conversas sobre sentimentos dentro de casa. Um livro lido junto não é só entretenimento é oportunidade de conexão.
Separei três livros com edição em português, disponíveis no Brasil, que eu considero essenciais para trabalhar o desenvolvimento emocional com crianças pequenas. Cada um aborda as emoções de um ângulo diferente, o que os torna complementares entre si.
1. O Monstro das Cores, de Anna Llenas
Se você tem pesquisado sobre educação emocional na infância, é muito provável que esse livro já tenha cruzado seu caminho. E não é por acaso. Publicado originalmente em 2012 na Espanha pela arte-terapeuta e ilustradora Anna Llenas, o livro vendeu mais de 200 mil exemplares no país de origem antes de ser traduzido para mais de 16 idiomas. A edição em português chegou ao Brasil pela Editora Aletria em 2018 e se tornou rapidamente um dos livros infantis sobre emoções mais conhecidos e usados por famílias e educadores no país.
A história acompanha um monstro que está confuso porque sente muitas coisas ao mesmo tempo e não consegue separar o que cada uma delas é. Com a ajuda de uma amiga, ele vai aprendendo a identificar cada emoção e a colocá-la em seu lugar. O recurso visual mais poderoso do livro é a associação de cada emoção a uma cor: amarelo para a alegria, azul para a tristeza, vermelho para a raiva, preto para o medo e verde para a calma.
Esse recurso não é só estético. Ele tem base no que Jean Piaget descreveu como pensamento concreto e pré-operatório, que caracteriza as crianças entre 2 e 7 anos. Nessa fase, a criança compreende o mundo através de representações concretas e sensoriais e associar uma emoção abstrata a uma cor visual é exatamente esse tipo de âncora concreta que facilita a compreensão e a memória.
Para além do Piaget, o livro funciona porque faz o que Henri Wallon chamava de nomeação do afeto o processo pelo qual a criança, ao ter suas emoções reconhecidas e nomeadas por um adulto (ou neste caso, por uma narrativa), começa a integrá-las à sua experiência consciente. Uma criança que aprende que o que sente tem um nome, uma cor e um lugar fica muito menos sozinha diante das próprias emoções.
Na prática, o livro funciona especialmente bem lido em momentos calmos, não no meio de uma crise emocional. Depois de algumas leituras, muitas famílias relatam que a criança começa a usar as cores espontaneamente para comunicar o que está sentindo “eu tô amarelo!” ou “tô com raiva, tô vermelho” o que é exatamente o tipo de vocabulário emocional que queremos ajudar a construir.
A edição brasileira é em capa dura, com 48 páginas e ilustrações grandes e coloridas. É indicada para crianças a partir de 2 anos e pode ser usada com muito proveito até os 6 ou 7 anos.
2. O Livro dos Sentimentos, de Todd Parr
Todd Parr é um autor e ilustrador americano que se tornou referência internacional em literatura infantil sobre emoções, diversidade e autoestima. Seu estilo é inconfundível: ilustrações em traço simples, cores vibrantes, quase primárias, com uma linguagem direta, sem rodeios e profundamente acolhedora. O Livro dos Sentimentos chegou ao Brasil pela Editora Panda Books e é um dos seus títulos mais recomendados por educadores e terapeutas infantis.
Diferente do Monstro das Cores, que tem uma narrativa com início, meio e fim, O Livro dos Sentimentos funciona como um panorama emocional. Cada página traz uma situação cotidiana associada a um sentimento, e o livro abrange tanto emoções “positivas” quanto emoções difíceis raiva, medo, ansiedade, ciúmes sem hierarquizá-las. Todas as emoções têm espaço. Todas são válidas.
Isso é mais importante do que parece. Lev Vygotsky enfatizava que a linguagem é a principal ferramenta do desenvolvimento cognitivo e emocional. Quando a criança aprende que a raiva tem nome, que o medo tem nome, que o ciúme tem nome e que esses sentimentos aparecem em livros, são nomeados por adultos e não são considerados “errados” ela desenvolve o que os pesquisadores chamam de vocabulário emocional, que é base para a regulação emocional futura.
A Sociedade Brasileira de Pediatria destaca a importância da validação emocional na infância como fator protetor do desenvolvimento da saúde mental. Um livro que trata todas as emoções como igualmente legítimas faz exatamente isso: valida o repertório emocional da criança sem criar hierarquias entre o que é “bom sentir” e o que é “ruim sentir”.
O livro tem 24 páginas, linguagem muito simples e funciona muito bem para crianças a partir de 2 anos. É especialmente útil para ser lido em momentos do cotidiano, sem uma ocasião especial folhear junto no café da manhã, antes de dormir, ou simplesmente quando a criança pegar na estante por vontade própria. Todd Parr também escreveu outros títulos na mesma linha que valem ser conhecidos, como O Livro da Paz e O Livro da Família.
3. Coleção Como Eu Me Sinto, de Cornelia Maude Spelman
Essa coleção merece um destaque especial porque foi escrita por uma terapeuta especializada em infância, o que se reflete diretamente na forma como os temas são abordados. Cornelia Maude Spelman usa uma linguagem simples, cuidadosa e profundamente tranquilizadora para ajudar crianças pequenas a identificar e atravessar sentimentos específicos. A coleção tem quatro títulos publicados em português no Brasil: Como Eu Me Sinto Quando Estou com Ciúmes, Como Eu Me Sinto Quando Estou com Medo, Como Eu Me Sinto Quando Estou com Saudade e Como Eu Me Sinto Quando Me Sinto Bem.
O que diferencia essa coleção das outras duas é o foco em sentimentos específicos e mais complexos, especialmente os que as crianças pequenas raramente têm palavras para descrever. O ciúme, por exemplo, é uma emoção que a criança sente com intensidade mas que raramente é nomeada com clareza pelos adultos ao redor, o que gera confusão e culpa. O livro sobre ciúmes da coleção nomeia esse sentimento diretamente, valida que ele é normal e oferece, de forma narrativa, caminhos para lidar com ele.
Henri Wallon, que colocava o desenvolvimento afetivo no centro de toda a sua teoria sobre a criança, dizia que as emoções não trabalhadas tendem a se expressar pelo corpo e pelo comportamento antes de encontrarem expressão verbal. A criança que bate, que morde, que chora de forma inconsolável muitas vezes está expressando exatamente isso uma emoção que ainda não tem nome e por isso não tem saída verbal. Livros como os da coleção de Spelman ajudam a construir essa saída verbal antes que a emoção precise se expressar de outra forma.
A coleção é indicada para crianças a partir de 3 anos e é especialmente útil em momentos de transição de vida chegada de um irmão (ciúmes), mudança de escola (medo), perda de alguém querido (saudade) quando a criança precisa não só de apoio emocional, mas também de vocabulário para entender o que está sentindo.
Cada livro da coleção tem cerca de 32 páginas, ilustrações acolhedoras e textos curtos, muito adequados para a atenção da faixa etária a que se destinam.
Como usar livros sobre emoções na prática
Um detalhe importante que faz toda a diferença: o impacto desses livros aumenta muito quando são lidos de forma interativa, não só narrada. Não precisa ser uma aula. Basta algumas perguntas simples enquanto vocês leem juntos.
“Você já se sentiu assim?” “Que cor você acha que esse sentimento teria?” “O que você acha que o personagem pode fazer agora?” São perguntas que ativam a conexão entre a história e a experiência real da criança, que é exatamente onde o aprendizado emocional acontece.
Vygotsky chamava esse processo de mediação o papel do adulto em enriquecer a experiência com linguagem e perguntas que levam a criança além do que ela conseguiria sozinha. A história abre a porta. Você, lendo junto e conversando, é o que ajuda a criança a atravessá-la.
E se seu filho quiser ler o mesmo livro vinte vezes seguidas, deixa. Isso não é falta de variedade é consolidação. As crianças pequenas aprendem pela repetição, e cada leitura do mesmo livro é uma nova oportunidade de conexão com o conteúdo emocional que ele traz.
Resumo: os 3 livros e para quem cada um é ideal
O Monstro das Cores, de Anna Llenas, é o melhor ponto de partida para introduzir o vocabulário emocional de forma visual e concreta, especialmente para crianças a partir de 2 anos que ainda estão aprendendo a nomear o que sentem.
O Livro dos Sentimentos, de Todd Parr, é o mais abrangente e cotidiano dos três, ideal para validar todo o repertório emocional da criança incluindo as emoções difíceis, e funciona muito bem do jeito que a criança usa um livro favorito: folheado livremente, sem hora certa.
A Coleção Como Eu Me Sinto, de Cornelia Maude Spelman, é a mais indicada para momentos de transição e para trabalhar sentimentos específicos como ciúmes, medo e saudade com mais profundidade e cuidado.
Os três juntos formam uma pequena biblioteca emocional que acompanha a criança em diferentes momentos da infância e que vai ser folheada, relida e redescoberta muitas vezes.
Fontes de referência
Sociedade Brasileira de Pediatria, Fortalecendo o desenvolvimento e o vínculo e A importância de recomendar a leitura para crianças de 0 a 6 anos
Lev Vygotsky sobre linguagem, mediação e desenvolvimento emocional, em A Formação Social da Mente.
Jean Piaget sobre pensamento concreto e representação simbólica na primeira infância, em A Psicologia da Criança.
Henri Wallon sobre desenvolvimento afetivo, nomeação do afeto e expressão emocional na infância, em A Evolução Psicológica da Criança.
Anna Llenas, arte-terapeuta e autora de O Monstro das Cores, Editora Aletria, 2018.
Todd Parr, autor de O Livro dos Sentimentos, Editora Panda Books. Cornelia Maude Spelman, terapeuta e autora da coleção Como Eu Me Sinto.



